Vozes de Tchernóbil é um dos livros mais tristes do mundo

“O que eu posso dizer? A coisa mais justa no mundo é a morte. Ninguém ainda pôde evitá-la. A terra dá abrigo a todos: aos bons, aos maus e aos pecadores. Não há maior justiça neste mundo” – Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch.

Lançado no Brasil em 2016 pela editora Companhia das Letras, Vozes de Tchernóbil é um livro repleto de relatos tristes e que mostram o sentimento de dor, desespero e indignação de pessoas que tiveram a vida afetada para sempre devido a um acidente ocorrido em 1986 na Usina de Chernobyl, localizada na Ucrânia. Ele é um livro-reportagem, obra de não-ficção, que relata histórias verídicas sobre o ocorrido, contribuindo para manter viva a memória das vítimas, além de ser uma fonte de conteúdo importante para estudo daqueles que têm curiosidade sobre o acidente.

A autora de Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch, é uma jornalista que uniu a responsabilidade desse ofício à vontade de contar histórias. Por meio dessa obra, ela dá espaço para muitas pessoas terem momentos das vidas delas compartilhados com os leitores. Ao escrever o livro falando sobre o acidente de Chernobyl e as consequências dele para os cidadãos que moravam perto da usina, Aleksiévitch também viu uma oportunidade de contar a própria história, pois era uma moradora da Bielorrússia, país vizinho da Ucrânia e que foi bastante atingido pelas nuvens radioativas.

Contexto histórico

Na madrugada do dia 26 de abril de 1986, um teste de segurança mal executado resultou em uma enorme explosão no reator 4 da Usina de Chernobyl (antigamente nomeada de Usina Atômica V.I. Lênin). Consequentemente, toneladas e mais toneladas de material radioativo foram expelidas pelo ar, formando nuvens radioativas que migraram para quilômetros de distância. Bombeiros foram chamados para conter as chamas, sendo os primeiros a morrer por entrarem em contato com a radiação sem nem saber do mal que ela causava. Operários da usina também fizeram parte do primeiro grupo de vítimas a falecerem devido ao mal da radioatividade¹.

A explosão ocorreu pela falha humana (com a quebra de protocolo e não seguimento das regras de segurança), além de ter sido o resultado de um conjunto de ações negativas que já estavam acontecendo desde a fundação dos reatores, que eram construídos com materiais mais baratos e, para serem finalizados mais rapidamente, vários deles não tinham estruturas essenciais que garantiriam a proteção e segurança dos trabalhadores e da situação em si, afinal, a energia nuclear é importante, no entanto, o processo de produção dela é arriscado e perigoso. Naquela época, o governo ucraniano fazia parte da União Soviética, então mostrar serviço e competitividade era necessário. Quanto mais rápido os reatores ficassem prontos, melhor. E isso, em uma situação a longo prazo, acabou se concretizando em uma catástrofe. Alguns erros de conduta e funcionamento em relação aos reatores e usinas do país eram enviados à KGB (Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti – Comitê de Segurança do Estado), porém, ela não realizava o impedimento da mau gestão².

Além dos bombeiros, os próprios operadores da Usina de Chernobyl foram gravemente afetados pela radiação do local. Essas pessoas que ficaram expostas a mais tempo perto do reator danificado ou tiveram as vidas ceifadas ou ganharam problemas graves de saúde. No entanto, não somente os bombeiros e operadores sofreram com o acidente, e sim, indivíduos que moravam próximos à usina e aqueles que residiam a até mesmo quilômetros de distância. A população da cidade de Prypiat, que ficava a somente três quilômetros de distância da usina, só foi evacuada 36 horas após o acidente porque o governo não acreditava que elementos radioativos tinham sido liberados com a explosão; para eles, a situação não era grave, e eles também desconfiavam dos resultados de dosimetristas que apontavam para o alto ´índice de radiação na usina e ao redor dela. A opinião mudou somente quando Valerii Legasov, um cientista renomado que fazia parte de uma comissão especial para apurar sobre a radioatividade no local, afirmou que era necessário evacuar a cidade de Prypiat imediatamente. E assim foi feito, porém, em 36 horas, muitas pessoas foram prejudicadas pela exposição ao material radioativo liberado.

Após a evacuação das pessoas e criação de uma zona de exclusão (mínimo de distância necessária que precisava ser desocupada para a não infecção), o governo começou a conter o vazamento dos elementos radioativos e a limpar toda a cidade de Prypiat (enterrar casas, jogar substâncias nos chãos, assassinar os animais etc). Habitantes da região e cidadãos da Ucrânia se voluntariaram para a realização do serviço sem saber sobre o perigo da radiação, pois o governo não informava. Quando alguém desconfiava da verdadeira situação do local, recebia represálias da KGB³.

Ao longo do tempo, essas pessoas que foram expostas ou morreram ou ficaram gravemente doentes. O problema é que a radiação prejudicou não apenas o indivíduo infectado, interferindo a vida dos filhos de tal pessoa, netos e assim por diante. A consequência dessa infecção e falta de compromisso do governo com a saúde dos moradores resultou no nascimento de várias crianças doentes e fracas.

O acidente de Chernobyl matou muitas pessoas, assim como adoeceu vários cidadãos, porém, não há um número certo de vítimas devido a própria desorganização do governo.

O livro

Em Vozes de Tchernóbil, as fontes entrevistadas por Aleksiévitch mostram a visão delas acerca do episódio e as consequências dele. Nos relatos, muitas histórias tristes são contadas, todas em primeira pessoa. Algo interessante de ser mencionado é que os monólogos possuem uma forma de falar diferente, o que mostra a versatilidade da autora para manter características próprias das fontes – algumas são mais formais e outras usam gírias, por exemplo, deixando o leitor mais próximo da história e da personagem.

Outra marca de escrita da jornalista que é interessante para o livro é a intromissão dela na história. Aleksiévitch às vezes mostra presença no texto ao afirmar a situação das personagens, como por exemplo, quando alguma fonte começa a chorar. Isso contribui para gerar empatia e deixa o leitor ainda mais ciente dos sentimentos de sofrimento/desespero/angústia/nostalgia de cada entrevistado.

Alguns momentos de Vozes de Tchernóbil

“Eu nunca os perdoarei. Nunca! Nem que seja só por uma menina. Ela dançava no hospital, estava dançando para mim uma “polquinha”. Naquele dia, completava nove anos. Era tão bonita, dançando. Dali a dois meses, a mãe me ligou: “Ólienka está morrendo!”. E eu não tive forças para ir naquele dia ao hospital. Depois, já era tarde. Olga tinha uma irmãzinha mais nova. A menina acordou uma manhã e disse: “Mamãe, eu vi no sonho dois anjos que vieram voando e levaram a nossa Ólienka. Eles disseram que a Ólienka vai ficar bem lá. Ela não tem mais dor. Mamãe, dois anjos levaram a nossa Ólienka”. Eu nunca perdoarei ninguém.”

(ALÉKSIÉVICH, 2016, p. 318).

“Todo o tempo, comparamos essa situação com a guerra. Mas podemos entender a guerra. O meu pai me falou sobre ela, eu li nos livros… Mas e isso, o que é? Na nossa aldeia deixaram três cemitérios: em um, descansam as pessoas, é o mais velho; em outro, os cachorros e gatos que tivemos de abandonar e que fuzilaram; no terceiro, as nossas casas. Eles enterraram até as nossas casas…”

(ALÉKSIÉVICH, 2016, p. 152).

“As crianças desenham Tchernóbil. São quadros de árvores que crescem com a raiz para cima, de rios com águas vermelhas ou amarelas. Elas desenham e elas mesmas choram.”

(ALÉKSIÉVICH, 2016, p. 179).

“A vovó nos trancava no galpão. Ficava de joelhos e rezava. E nos dizia: ‘Rezem! É o fim do mundo. É o castigo de Deus pelos nossos pecados’. O meu irmão tinha oito anos, e eu seis. Nós começamos a pensar nos nossos pecados: ele tinha quebrado um pote de geleia de framboesa, e eu não tinha contado à minha mãe que prendi e rasguei o vestido novo na cerca, e depois escondi no armário”.

(ALÉKSIÉVICH, 2016, p. 224).

“Eu não contei que quando ele morreu ninguém quis se aproximar do corpo, todos tinham medo. E não era permitido aos parentes lavá-lo e vesti-lo. Pelas nossas tradições eslavas. Trouxeram do necrotério dois sanitaristas. Os rapazes pediram vodca. ‘Já vimos de tudo’, confessaram, ‘gente em pedaços, gente cortada, corpos de crianças depois de um incêndio. Mas é a primeira vez que vemos algo assim’”.

(ALÉKSIÉVICH, 2016, p. 240).

Outras obras

Vozes de Tchernóbil faz parte do ciclo Vozes da Utopia, projeto em que a autora Svetlana Aleksiévitch conta a história da Rússia Soviética em cinco livros: A guerra não tem rosto de mulher, As últimas testemunhas: crianças na Segunda Guerra Mundial, Meninos de Zinco, Encantados com Morte (tradução literal para o português) e Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear. Eles abordam e criticam os regimes políticos tanto da União Soviética quanto da Bielorrússia.

Aleksiévitch demorou de sete a dez anos para produzir cada livro, e por obra, ela entrevistou cerca de setecentas pessoas. Esse trabalho árduo premiou estonteantemente a jornalista e escritora ucraniana: em 2015, Svetlana Aleksiévitch ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Assim como afirmado no início do post, o livro escrito por Svetlana Aleksiévitch é muito importante para manter viva a memória de um povo que não teve tanto espaço assim para se manifestar. Sabe-se que o acidente de Chernobyl aconteceu, sabe-se sobre como ele ocorreu e os motivos, no entanto, os bastidores não ganharam tanto destaque nas mídias tradicionais, assim como o horror sofrido pela população. E esse foi o papel necessário da jornalista ao produzir esse livro, que além de ser uma narrativa de não-ficção ao informar as pessoas melhormente a respeito do ocorrido, também emociona ao mostrar a humanidade e o sofrimento das vítimas de um acontecimento cruel.

Nesse livro, o leitor sofre junto da vítima da catástrofe, a dor não é ficcional, ela não foi inventada. Não existiu um escritor recheando o livro de plots de guerra, assassinatos, doenças etc. Existiu apenas uma escritora e jornalista que pegou relatos e os transcreveu belamente no papel. Por isso Vozes de Tchernóbil é tão triste… A realidade consegue ser ainda mais lamentável do que a ficção.

Referência: ¹²³ – LEATHERBARROW, Andrew. Chernobyl: 01:23:40. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM Editores, jan. 2020.

O meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi sobre o livro-reportagem Vozes de Tchernóbil. Se você possuir alguma dúvida a respeito dessa obra, ficarei contente em ajudar da maneira que eu puder.

Escrito por

Sou Daniela Esperandio Dias, uma capixaba de 21 anos que é jornalista e tem coluna de uma senhora de 70. Estou na luta para aprender francês, amo ler e escrever, e tenho um cachorro idoso que me acompanha nas minhas tardes de estudo.

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