bom dia, tarde e noite ao fim do mundo

Era de manhãzinha quando acordei. Um milagre, para falar a verdade, porque faziam dias que a minha pessoa se permitia acordar até mais tarde. A rotina de antes mudou completamente, transformando-se em algo mais desleixado e frouxo que alimentava, por mais controverso que parecesse, a minha querida ansiedade. Esta, que mora em minha mente, tinha se acalmado com a vinda do saudoso 2020, porém, ao chegarem as notícias da quarentena no mês três, ela saiu do seu confortável e distrativo balanço que a fazia se aquietar e passou a bailar, perturbando todos os meus pensamentos e os bagunçando como uma desgraçada. Não fazia muito sentido. Eu estava em casa. Por que essa cretina inventava me aporrear?

Nada de sair da cama, nada de levantar correndo e se apressar para pegar o ônibus. Eu ficaria em casa o dia todo, todos os dias. Peguei o celular, li as notícias principais em alguns jornais de sempre, li mensagens no Whatsapp. Entre conversas com amigos, sempre aparecia a curiosa pergunta “você está bem?”, e posteriormente, alimentando a conversa, era previsível a resposta do “claro que não”. Quem estaria bem nessa situação histórica que a sociedade se encontra atualmente? Por favor, se você estiver se sentindo bem com a atualidade, peço que se retire.

No início, a história do novo coronavírus parecia notícia de um filme. Começou tão longe e distante, ninguém poderia imaginar que ela seria desenrolada assim. O vírus pisou na Ásia, passeou pela Europa e gentilmente veio para a o país verde e amarelo como um canalha, infiltrado em um corpo brasileiro. E depois, as contaminações cresceram, as mortes se concretizaram e os jornais passaram a ter apenas uma pauta, informando a todos sobre o mesmo assunto. Os hospitais lotaram, os profissionais da saúde se viram desafiados com tantos corpos doentes, as escolas enviaram os alunos para suas casas, pessoas lutaram por álcool e gel nos supermercados, os fabricantes de máscaras viram sua receita crescer miseravelmente. Foi tudo muito rápido.

Enviei um emoji deplorável para um grupo. “Estou péssima, óbvio”. E levantei da cama posteriormente. Eu só ficaria bem com uma vacina fluindo pelo meu corpo e quando os jornais dessem a notícia de que as mortes cessaram, que o mundo estava saudável de novo – bom, saudável em relação ao novo coronavíus, porque se formos lamentar tudo de ruim que a geóide Terra enfrenta, eu nunca poderia voltar a ficar bem. No início, a expectativa era que a história toda fosse resolvida rapidamente. Em março viramos reféns da pandemia, e muitos diziam que em julho tudo poderia estar melhor. Julho entrou em campo e a situação continua aterrorizante. Na verdade, com o avanço dos meses, algumas pessoas se tornaram descrentes da potência maligna do vírus. Não é raro encontrar em postagens nas redes sociais alguns perfis zombando a doença. Alguns políticos contribuem com essa atitude ignorante e irresponsável, e isso é algo que me enfurece toda. Para mim, eles são como Judas Iscariotes, matando indiretamente; outros são como Marcus Junius Brutus, assassinando descaradamente. Afinal, se alguém sabe que a doença é realmente perigosa, por que sai de casa quando tem a opção de contribuir com o isolamento social? Por que oferece o corpo para ser um hospedeiro do vírus?

“Você está péssima. Por quê?”, perguntou uma amiga.

“Por que você está acordada a essa hora?”, retruquei a amiga.

“Me responde primeiro. Por que está péssima?”

“É possível não estar?”

Ao mesmo tempo que o desânimo me possuiu como um espírito maculado e a ansiedade cretina brinca de embaraçar meus pensamentos, sinto-me culpada por falar tão mal de minha situação. Sim, minha saúde mental não está 100%, mas tem muita gente que está sofrendo mais. Existem pessoas que estão nos hospitais, seja a trabalho ou seja pela luta contra a morte, existem aqueles que saem de suas casas para trabalhar porque o home office não é possível… Não consigo listar o tanto de situações ruins que são uma realidade e que eu, por sorte, não faço parte. Então, por um lado, sinto-me mal e assumo essa culpa.

O meu dia passou rápido. Eu fiz as mesmas coisas que ontem. Li notícias novas, mas de mesmo assunto, peguei livros para ler mas não me prendi pelo desânimo, participei da minha aula de ensino à distância e me dispersei em incontáveis momentos, fiz o meu trabalho de estagiária sendo a única parte verdadeiramente produtiva de minha rotina, assisti a filmes mas não vi tanta graça, tentei escrever mas não consegui. Esses tempos me moldaram para não conseguir fazer várias coisas, como me olhar no espelho, como ter vontade de acordar cedo e me mover.

Se eu pudesse, dormiria e acordaria quando tudo estivesse em ordem.

Escrito por

Sou Daniela Esperandio Dias, uma capixaba de 20 anos que tem coluna de uma senhora de 70. Curso jornalismo e estou na luta para aprender francês. Amo ler e escrever, e tenho um caso sério com o chocolate.

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